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Comichão do Pensamento

Comichão do Pensamento

De vez em quando largo aqui algumas comichões que tendem a corroer-me por dentro Se gostas do que leste não hesites em comentar :)

Levantei-me

Levantei-me.

Levantei-me pareceu-me a melhor palavra para começar esta história. É com o levantar que as coisas acontecem. Começa o dia porque nos levantamos da cama. Podem ser quatro da tarde, mas se ainda não removemos o corpo dela, se ainda nos recusamos a levantar, o dia não é dia ainda. Nada começa sem que nos levantemos.

Se queremos estar sozinhos, porque nos dói seja lá o que for – uma perna, ou, mais frequentemente, o coração -  levantamo-nos.

Se as nossas peles parecem, de repente, demasiado pequenas para nos conter nelas e à raiva - que nos nasce no recanto mais obscuro do nosso ser -, levantamo-nos. Por norma para nos jogarmos a alguém. Para podermos arrancar de nós tanta agonia na forma de violência e – por norma – deixá-la cair em cima daqueles que mais queremos em nosso redor.

Quando um amor - que pareceu amor num início de outrora - deixa de ser amor para passar  a ser estupidez, levantamo-nos. Nem sempre, devo dizer. Mas das vezes que não o fazemos estamos apenas à espera do apercebimento. Do apercebimento que nos falta de que o amor é, de facto estupidez, mas não o género da que nos senta no chão ao lado de alguém que nos olha do cimo de um falso trono.

Não que saiba alguma coisa sobre amor ou coisas relacionadas. Mas o que sei é que, tantas vezes chamamos amor a coisas que não são amor. Porque não sei o que é o amor, mas sei muito bem o que não é.

O amor não é saber o que a outra pessoa faz de hora a hora. O amor não é fazer ciúmes em troca de sentir amor. E o amor não é andar de olhos no chão, em constante fingimento de conhecermos o amor, mesmo com uma nódoa negra de quando – desastradamente – fomos contra a porta de casa.

Mas esta não é uma história sobre amor. Na realidade, esta não é uma história sobre nada em particular. Sejamos realistas, isto nem é sequer uma história.

O que encontras aqui, querido leitor, sou eu. Eu sozinha com o barulho da vida. Com a textura dela. E a paisagem que ela me proporciona.

Estas palavras são palavras que talvez nem façam sentido. Mas são aquelas que as minhas mãos quiseram fazer aparecer na minha frente. E isso só quer dizer que as acho importantes. Ou então que não podia querer saber menos delas.

Não interessa o que estas palavras significam. Interessa que elas estejam aqui, porque assim foi que aconteceu, senão não estariam a ser lidas.

Acabo esta história - que história não é - com a mesma palavra com que comecei.

Porque aquela com que a comecei é aquela com que a vida começa. E por isso, aquela com a qual eu começo.

Levantei-me, e assim, se fez tudo o que sou.