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Comichão do Pensamento

Comichão do Pensamento

De vez em quando largo aqui algumas comichões que tendem a corroer-me por dentro Se gostas do que leste não hesites em comentar :)

As Pessoas Nunca Serão Palavras

Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir em palavras, se queremos pelo menos que os outros sintam connosco - mas as palavras são pedras

– Vergílio Ferreira

 

 

Leio no silêncio da noite quase manhã

As palavras juntas abraçam-se

Agarram as pernas das letras

Beijam-se desmedidamente

Debaixo dos meus olhos

Espreitando por baixo dos meus dedos

 

Leio no silêncio da noite quase manhã

Os pássaros cantam

Quem sabe, palavras

Das que leio

Das que escrevo

E que não sei se certas se

Inúteis

 

Mas inúteis são todas as palavras

Frases cuspidas

Exclamações atiradas àqueles que nos rodeiam

E a quem queremos com tanto ardor

E com tanta

Tanta força

Justificar, descrever, mostrar,

Exibir, o que nos vai nas veias

Nos ossos

Na alma que referimos

Mas que duvidamos existir

 

Queremos muito dizer

Saber dizer o que elas são

Para nós

Para o mundo

Decompô-las em vírgulas

Pontos finais

E travessões

 

Mas as pessoas não são

Escrita

As pessoas são tudo

O que não é escrito

E com tudo o que aqui não escrevo

Digo muita coisa

Sobre mim

Sobre aquilo e

Sobre aqueles que sou e

Que me são

 

As palavras não são,

As palavras jamais serão

Para usar nas pessoas

Pelo menos não na sua composição

As pessoas são, no máximo,

Páginas:

Umas amachucadas de leituras atribuladas

Outras de erros ortográficos

Aos quais não há correcção possível;

Umas já rasgadas sem volta a dar,

Sem arranjo ou amanho que

Se lhes dê,

Outras parte de livro que,

Em mãos violentas, se sepultou de espinha partida

 

 

As palavras são insuficientes

Se as imortalizamos no papel

Na tentativa de que digam coisas

Coisas gordas, importantíssimas,

Altas, carregadas de monumentalidade

Insistem em deixar tudo de parte

Tomar rédeas das suas frases

E deixar tudo por dizer

 

Somos literatura

Sim

As pessoas podem ser literatura

Em cima de duas pernas

Por vezes sentimos pessoas

Como sentimos a literatura:

Uma mão que escalda de conforto;

Que permanece;

Que perfura além daquilo que nos parece humano;

Uma mão que não dá espaço ao vazio

 

Sim

As pessoas podem com certeza

Ser literatura

Mas nunca

Jamais

Seremos palavras

Somos muito maiores

Muito mais altos

Que os edificios

De acentos

E hífens

Que as palavras permitem.