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Comichão do Pensamento

Comichão do Pensamento

De vez em quando largo aqui algumas comichões que tendem a corroer-me por dentro Se gostas do que leste não hesites em comentar :)

Abismos

 Sentei-me hoje ao teu lado, mas já não eras tu.

 Estava alguém na cadeira à minha esquerda, com as tuas rugas, as pantufas que te pertenciam a ti e a ti só, o teu roupão, numa pessoa que poderia ser qualquer uma menos tu.

 A vida já não vivia dentro de ti, mas escorria-te pelas rugas da cara. Deixara de ser um bicho inquieto no profundo do teu ser, ventos e tempestades nas cavernas do teu coração. A vida para ti, sabia-o bem, tinha-se aventurado no início do seu derradeiro fim, sem que nada houvesse a meu alcance, ou dos que te rodeavam, para uma tentativa de recuperação, de limpeza de males dispensáveis.

 Sentada ao lado daquela que não eras tu mais, soube-me perdida.

 Os olhos com que me vias eram nada mais que abismos. Olhar para eles  como quem tenta encontrar o fundo de um poço, sem cansaço, a querer acreditar que existe um fundo e que algo lá se deita, alguém ainda, que talvez se chamarmos nos oiça.

 Receei não ter-te nunca mais como mais te queria, como sempre foste.

 E como sempre, como todos nos encolhemos à passagem do incerto e duvidoso, do medo, sempre o medo e o medo acompanhados de mais medo. O medo que sempre  nos faz pensar que o que não fizermos agora, o passo que não dermos, as palavras que não deixarmos ir passear lá fora, arejar até aos ouvidos dos outros, nos hão-de atormentar até ao fim dos nossos dias, minutos, segundos.

 Foi esse mesmo medo que me empurrou.

 Roubaram-me a roupa do estendal, disse-te.

 E roubaram-me os sapatos. Levaram-me a comida, à frente do meu nariz, que burra fui, roubaram-me a cama, fiquei sem livros.

 Fui roubada, avó.

 Sento-me aqui a teu lado, incompleta como nunca antes estive. Bem sei que incompleta ando sempre, mas desta vez, e desta vez apenas, sei que metade desse sentimento, dessa solidão assombrante que não me larga nunca, se deve ao facto de ter sido roubada, à minha frente, sem ter podido fazer nada, sem o evitar, ou mais grave, sem o querer de forma alguma evitar.

 Olhaste-me quase como se nada fosse.

 Não esperava aplausos, mas a reacção que me ofereceste não foi suficiente para me aquecer a alma nem um pouco.

 A razão era muito simples e estava à vista para todos verem.

 Não eras tu, simplesmente a pessoa, o corpo que iludia com a ideia de que te carregava lá dentro, não te trazia, a tua essência havia sido perdida, e perdida estava também a minha esperança de te voltar a encontrar nos teus olhos, de não ver abismos e ver oceanos de vida.

 Aos poucos os oceanos tiveram o seu retorno.

 Como me tremem as mãos só de pensar que te não tive por momentos, por dias, por semanas, e que a esperança me escorregava do ser e desaparecia sabe-se lá para onde. Abismos, talvez.